A Navalha de Ockham. Mas antes vamos ser honestos por um segundo.
Investir hoje parece mais difícil do que deveria. Você abre o celular e é bombardeado por gráficos, indicadores, estratégias “infalíveis”, robôs de investimento, carteiras milagrosas e promessas de retorno acima da média — tudo ao mesmo tempo.
O resultado? Gente inteligente travada. Pessoas que ganham bem, estudam, se informam… mas não conseguem investir com tranquilidade. Ou investem, mas vivem inseguras, trocando de estratégia a cada nova manchete econômica.
Agora vem a provocação:
e se o problema não for falta de informação, mas excesso dela?
É aqui que entra a Navalha de Ockham, um princípio simples, antigo e extremamente atual. Ele não promete ganhos rápidos nem atalhos mágicos. O que ele oferece é algo bem mais valioso no mundo dos investimentos: clareza.
Neste artigo, vamos ver sobre como aplicar esse princípio para simplificar seus investimentos, reduzir erros, ganhar consistência e, principalmente, parar de complicar o que não precisa ser complicado.
O que é a Navalha de Ockham, sem academicismo
A Navalha de Ockham, formulada no século XIV pelo filósofo inglês Guilherme de Ockham, nos lembra que a explicação mais simples costuma ser a mais eficaz. Aplicar esse princípio aos investimentos é um exercício de maturidade.
É aceitar que:
- você não precisa de tudo
- você não precisa de todos os produtos
- você não precisa de todas as opiniões
Você precisa de clareza, constância e paciência.
Se hoje sua vida financeira parece confusa, talvez não falte algo novo. Talvez seja hora de cortar o excesso.
Porque no mercado, a complexidade impressiona. Mas é a simplicidade que constrói riqueza.
A Navalha de Ockham pode ser resumida assim:
quando existem várias explicações ou caminhos possíveis, o mais simples costuma ser o melhor.
Não é uma regra absoluta. É um critério de bom senso.
No contexto financeiro, isso significa desconfiar de soluções excessivamente complexas quando existe uma alternativa mais simples, mais clara e igualmente eficaz.
Ou, traduzindo para a vida real:
se você precisa de três planilhas, dois aplicativos, um curso avançado e um grupo no WhatsApp para entender o que está fazendo com seu dinheiro… talvez você esteja complicando demais.
Por que investidores adoram complicar tudo?

Essa parte pode incomodar um pouco, mas é importante dizer.
O mercado financeiro recompensa a complexidade. Não porque ela seja melhor, mas porque ela vende melhor. Status e glamour atraem para dentro da bolha — e no final, muitos perdem dinheiro. Estratégias simples não rendem produtos caros, mas rendem resultados reais.
Já a complexidade cria:
- sensação de sofisticação
- dependência de especialistas
- justificativa para taxas mais altas
- medo de fazer sozinho
Isso não quer dizer que tudo que é complexo é inútil. Mas significa que você precisa separar complexidade necessária de complexidade artificial.
A Navalha de Ockham é justamente a ferramenta mental que ajuda a fazer esse corte.
Simplificar não é ser preguiçoso — é ser estratégico
Existe um mito perigoso no mundo dos investimentos: o de que quanto mais complexo o investidor, mais inteligente ele é. Será mesmo?
Na prática, acontece o contrário com muita frequência.
Investidores que acumulam estratégias, ativos e “teses” demais costumam:
- perder o controle da própria carteira
- reagir emocionalmente às oscilações
- mudar de plano no meio do caminho
- ter desempenho mediano ou ruim
Simplificar não é abrir mão de retorno.
É abrir mão do ruído.
E ruído, em investimentos, custa caro.
Como aplicar a Navalha de Ockham aos seus investimentos, passo a passo
Agora vamos para a parte prática. Aqui está um guia direto, aplicável e honesto.
1. Entenda exatamente por que você investe
Antes de falar de produtos, fale de objetivos.
Pergunte a si mesmo:
- Para que esse dinheiro existe?
- Em quanto tempo vou precisar dele?
- Qual nível de risco eu realmente tolero, na prática?
Muita gente pula essa etapa e começa escolhendo investimentos. É como comprar ferramentas antes de saber qual casa vai construir.
Simplicidade começa com propósito claro.
2. Corte o que você não consegue explicar
Regra simples e poderosa:
se você não consegue explicar um investimento em uma frase clara, provavelmente não deveria ter esse investimento.
Não vale usar frases vagas como:
- “me disseram que é bom”
- “está na moda”
- “parece sofisticado”
- “todo mundo está fazendo”
Isso não é critério. É terceirização de responsabilidade.
A Navalha de Ockham manda cortar o excesso. E excesso, muitas vezes, é aquilo que você mantém por insegurança.
3. Menos ativos, mais entendimento
Ter muitos investimentos não significa ter uma carteira diversificada de verdade.
Diversificação não é quantidade.
É função.
Uma carteira simples pode ser bem diversificada se:
- cobre diferentes classes de ativos
- respeita prazos diferentes
- está alinhada ao seu perfil
Muitas pessoas têm dez fundos diferentes que fazem praticamente a mesma coisa. Isso não é estratégia. É confusão organizada.
4. Cuidado com o “complexo disfarçado de simples”
Aqui vai um alerta importante.
Nem tudo que parece simples é realmente simples. Alguns produtos usam linguagem acessível para esconder riscos elevados ou estruturas difíceis de entender.
Aplicar a Navalha de Ockham não é escolher o que parece fácil, mas o que é realmente transparente.
Pergunte sempre:
- Onde está o risco?
- Quanto custa manter isso?
- O que acontece no pior cenário?
Se ninguém consegue responder claramente, acenda o sinal amarelo.
5. Automatize decisões repetitivas
Decidir cansa. Decidir mal cansa ainda mais.
Uma das formas mais inteligentes de simplificar investimentos é automatizar o que não precisa ser decidido toda vez:
- aportes mensais
- rebalanceamentos periódicos
- divisão entre renda fixa e variável
Você toma a decisão uma vez e deixa o plano trabalhar por você.
Menos emoção. Mais consistência.
Um exemplo simples e dolorosamente comum
Vamos falar de duas pessoas fictícias, mas que você provavelmente conhece na vida real.
Pessoa A:
- acompanha o mercado todos os dias
- muda de estratégia com frequência
- investe em vários produtos diferentes
- vive insegura, mesmo estudando muito
Pessoa B:
- definiu um plano claro
- investe de forma regular
- entende exatamente o que tem
- raramente muda de rota
Quem você acha que dorme melhor à noite?
E quem tem mais chances de manter a estratégia por 20 anos?
Investimentos não premiam os ansiosos. Premiam os consistentes.
Não há status, não há glamour.
Apenas uma estratégia de longo prazo: bons negócios, retornos previsíveis, que crescem com o tempo e com a força dos juros compostos.
O erro de tentar ser mais esperto que o sistema
Aqui vai uma opinião direta:
a maioria das pessoas não perde dinheiro investindo por falta de inteligência, mas por excesso de tentativa de controle.
A Navalha de Ockham corta essa ilusão.
Ela lembra que:
- você não precisa prever o mercado
- você não precisa reagir a cada notícia
- você não precisa ter opinião sobre tudo
Você precisa de um plano simples, bem pensado e executado com disciplina.
Quando a simplicidade vence no longo prazo
O tempo é o fator mais subestimado dos investimentos.
Estratégias simples tendem a:
- sobreviver melhor a crises
- ser mais fáceis de manter
- gerar menos decisões impulsivas
No longo prazo, isso faz uma diferença gigantesca.
A complexidade pode impressionar no curto prazo.
A simplicidade constrói patrimônio.
Quando não aplicar a Navalha de Ockham
Importante deixar claro:
simplificar não significa ignorar contexto.
Existem situações em que estratégias mais sofisticadas fazem sentido — geralmente para quem:
- tem patrimônio elevado
- acesso a assessoria qualificada
- tempo e estrutura para acompanhar
Mas se esse não é o seu caso, tentar imitar esse nível de complexidade costuma ser mais prejudicial do que benéfico.
A pergunta que realmente importa
No fim das contas, a Navalha de Ockham nos força a encarar uma pergunta desconfortável:
eu estou investindo para parecer inteligente ou para alcançar meus objetivos financeiros?
Se a resposta for a segunda, simplificar deixa de ser uma opção estética e vira uma decisão estratégica.
Cortar para avançar
A Navalha de Ockham, formulada no século XIV pelo filósofo inglês Guilherme de Ockham, nos lembra que a explicação mais simples costuma ser a mais eficaz. Aplicar esse princípio aos investimentos é um exercício de maturidade.
É aceitar que:
- você não precisa de tudo
- você não precisa de todos os produtos
- você não precisa de todas as opiniões
Você precisa de clareza, constância e paciência.
Se hoje sua vida financeira parece confusa, talvez não falte algo novo. Talvez seja hora de cortar o excesso.
E essa, quase sempre, é a decisão mais inteligente que um investidor pode tomarar.

